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sábado, 6 de junho de 2015

Toyota TS010, o pai do GT-One que encarou Le Mans e o Peugeot 905

Na postagem anterior, você leu aqui na SGTBR a história de um esporte-protótipo pouco famoso, mas que antecedeu o badalado Nissan GT-R LM NISMO e faz parte da história da marca como o último protótipo de conceito habitual (a tração traseira e motor central): o Nissan R391. Ele não teve a mesma fama que o carro antecessor, tampouco repetiu (ou melhorou) o feito do mesmo. De uma maneira muito similar, mas bem melhor que a condição do Nissan, a Toyota construiu no início dos anos 90 o protagonista deste post.

Claro. Ele não tem a mesma fama que o Toyota GT-One, porque este figurou em um videogame global, o Gran Turismo. Mas acabou conquistando resultados mais interessantes que o TS020, uma vez que este não chegou a vencer nenhuma corrida em classificação geral (apenas venceu em sua classe). Quanto ao protagonista, estou falando do insano Toyota TS010. Um dos últimos protótipos da Toyota para o já enxuto Grupo C, que estava passando por uma crise regulamentar nos anos 90.
E não é justo falar do Toyota TS010 sem falar um pouco dessa crise. Ela começou em 1991, quando a FIA introduziu um novo tipo de motor para os carros do Grupo C, dado o sucesso que eles vinham tendo desde o fim da década de 80. A mudança foi para favorecer os custos acerca da Formula 1, que estava com um regulamento similar para seus motores, com cilindrada de 3.5 litros e naturalmente aspirado. Diante dessa regra, o Mundial de Endurance (World Sportscar Championship, chamado assim na época) de 1991 foi uma catástrofe, mesmo que algumas equipes oficiais tenham construído carros dentro do regulamento naquele ano, como a Mercedes-Benz (C291), a Jaguar (XJR-14) e a Peugeot, com o novíssimo 905 (o alvo principal do TS010). De qualquer forma, dado o baixíssimo numero de equipes (em especial as privadas), a gestão do Mundial permitiu a entrada de alguns carros do regulamento passado. E isso atingiu também as 24 Horas de Le Mans.

De forma muito incomum, algo que não é habitual nem em corridinhas de Fusca, a ACO (Automobile Club de l'Ouest, organizador das LM24) e a FIA prevaleceram o grid daquela edição de 1991 das 24 horas com carros do novo regulamento '3.5' largando entre as 10 primeiras posições, com o resto sendo composto por modelos "antigos", entre equipes oficiais e privadas. Incrivelmente, ninguém tinha carros do novo regulamento (bem, a Mercedes e a Jaguar tinham, mas preferiram correr com seus modelos antigos, uma vez que foram permitidos correr com eles) e somente a Peugeot arriscou com seus novíssimos 905. O protótipo francês foi classificado em terceiro e oitavo, praticamente, mas com a condição dada pela FIA, eles largaram na primeira e na segunda posição.

E como vocês sabem, o resumo dessa história toda resultou na vitória do Mazda 787B, que virou uma lenda perante aos outros, por ser o único carro japonês e sem pistões que venceu as Le Mans.
A largada de Le Mans 1992
Mas vamos lembrar que, a Jaguar levou o título daquele ano e, no resto da temporada, a Peugeot acabou trinfando em quatro corridas. Para 1992, o Peugeot 905 teve uma evolução definitiva para as pistas do Mundial e, claro, uma versão especial pra vencer as 24 Horas de Le Mans. Algumas equipes participantes da temporada anterior, em protesto ao novo regulamento, decidiram engavetar seus projetos no endurance e engatilharam outros rumos. A Mercedes, por exemplo, foi "observar" o projeto da Sauber na F1. A Jaguar foi aventurar no IMSA GTP com seus Jaguar XJR-14, onde tinham um regulamento mais liberal e competitivo que o do Mundial. A Jag (na verdade, a TWR) até "vendeu" cinco de seus chassis pra Mazda continuar no ano seguinte, pra vocês terem uma ideia de como a coisa não estava bem. Os chassis vendido à Mazda foram rebatizados de 'Mazda MXR-01' e dois deles contaram com a decoração "abelha", aquela do vencedor de 1991.

E como ficaria a Peugeot, quase sem adversários?
Ela ganhou um rival japonês a altura.

A Toyota não foi vista nem com equipe privada na temporada completa de 1991 do WSC, porque eles estavam desenvolvendo um novíssimo protótipo dentro daquele regulamento, pronto pra debutar ainda naquele ano, mas pra fazer bonito em definitivo na temporada de 1992. A Toyota já tinha seus protótipos da série 'C-V', que eram movidos de 4-em-linha até os V8 biturbo. Mas diante do novo regulamento, 100 por cento oficializado em 1992, construíram um protótipo de aspiração natural, V10, 3.5 litros, cinco válvulas por cilindro (ao estilo dos motores da F1 na época, até o ronco era parecido!) e potência restrita em torno dos 600cv – como boa parte dos motores dessa época, eram compostos por restritores de ar para gerar menos potência e mais confiabilidade, uma vez que se tratavam de carros de endurance. O Toyota TS010 tinha, na verdade, mais de 700cv a disposição. Ainda tinha o doce câmbio manual, com seis velocidades, e suspensão independente nos dois eixos.

A Toyota não estava pra brincadeira...
A mecânica não foi a única prioritária. A carroceria passou por um design arrojado, todo em fibra de carbono, com aerodinâmica "sutil ao vento", capaz de deixá-la sob o famoso efeito-solo, proibido na F1 durante os anos 80 por motivos de segurança, mas ainda permitido nos protótipos de endurance. E uma das coisas que eu acho mais bonitas nele, são as rodas traseiras tapadas – que pra mim foram os maiores charmes da história do design dos Grupo C. O designer do projeto foi Tony Southgate, o cara que desenhou os Jaguar's da TWR e que venceram Le Mans em 1988 e 1990. Foi o primeiro projeto da Toyota com mão de projetista não-japonês (a DOME era 100 por cento responsável pelos protótipos da série C-V). O peso? 750kg, 100 a menos que os antigos Grupo C. Era esse o peso mínimo para os novos carros da '3.5'.
Para intimidar o rival francês, foram construídos seis chassis do TS010 – sendo mais da metade destinado a Le Mans, para testes ou para a corrida. E claro: foram usados também no Mundial. A caráter oficial, a TOM'S aliou-se a Toyota no novo projeto e passou a representar o time por onde corresse, dando continuidade ao famoso Toyota Team TOM'S, ou "TTT". O TS010 teve uma vitória já na primeira corrida daquele ano, mas favorecida por desfalque de... todos os carros! Basicamente todos eles quebraram, com dois não se classificando e a corrida sobrando pro novo Toyota. Até o Peugeot quebrou. Querendo ou não, era uma vitória em cima dos rivais.
Toyota TS010 #33 em ação nas 24 Horas de Le Mans de 1992
Mas, no resto da temporada, só deu Peugeot 905. Quero destacar o desempenho em Le Mans: a corrida vinha comprometida pela adoção do novo regulamento. Em uma corrida do Mundial, no início da temporada de '92, eram 10 ou 12 carros – uma desgraça de grid. Nas 24 horas, foram 30 inscritos, mas dois não largaram e mais da metade quebrou no caminho. Aquela corrida foi tomada pela chuva do início ao fim. E por mais que o TS010 tenha perseguido os Peugeot em boas oportunidades, não foi o suficiente pra vencê-lo e o melhor dos Toyota TOM'S terminou em segundo – mas há seis voltas atrás do primeiro colocado, o Peugeot 905 Evo Bis #1, que posteriormente vinha ser campeão nesta última temporada do Mundial. Ao menos a volta mais rápida ficou com o TS010 #8: 3'32.295.
Toyota TS010 #8, o protótipo com a volta mais rápida de 1992
Faltavam mais três etapas para o WSC acabar naquele ano pra sempre, porque nessas três últimas, o grid não passou de 10 carros. E em todas elas, o TS010 não superou o épico 905. Por estar no páreo e dentro do novo regulamento, junto ao Peugeot, o Toyota TS010 é digno de receber título de um protótipo derrotado. Ao menos, ainda naquele ano, ele venceria mais duas corridas: os 1000km de Fuji e os 500km de Mine, válidos pro All Japan Sports-Prototype Championship (JSPC) e por mérito abocanhará o título daquele ano.
A versão que venceu por mérito os 500km de Monza de 1992, em ação no Goodwood Festival of Speed
O projeto japonês foi mantido para 1993, ano já desmembrado do Mundial, o WSC, que foi morto pela FIA depois do desfecho de 1992. Restava colocar o carro apenas em Le Mans, já que o JSPC também acabou naquela época e não havia outro lugar que o abrigasse.

Foram construídos mais três novos chassis, totalizando nove TS010 existentes. O #007, o #008 e o #009 foram inscritos nas 24 Horas de Le Mans de 1993 novamente para brigar contra os Peugeot 905, que vinham da mesma situação, uma vez que o campeonato deles foi extinto a partir desta temporada. O chassi #003, usado como um dos carros oficiais em 1992, foi test car da equipe no Journée Test. Poucas atualizações em relação ao ano anterior a não ser um pacote aerodinâmico e um motor mais refinado, e a perda da carenagem traseira que tapava as rodas daquele eixo.

Só tinha Le Mans pra correr...
Versão rara dele, que correu nos 500km de Mine
E novamente o desfecho de não conseguir vencer a Peugeot. O melhor Toyota terminou em quarto, pilotado por Eddie Irvine e os japoneses Toshio Suzuki e Masanori Sekiya, massacradamente à 10 voltas do primeiro colocado. Os outros Toyota's (excluindo o 93C-V, que participou e terminou em quinto), chegaram na oitava posição e respectivamente seguido de um abandono. Depois daquela corrida, o regulamento mudou mais uma vez. Mas já era tarde demais e os Grupo C foram retirados de cena.

E após as 24 Horas de Le Mans de 1993 e consequentemente o fim do Grupo C, o programa da marca com o belo protótipo foi encerrado. Terminou a carreira com um total de dez corridas participadas, três vitórias e 65% de aproveitamento nas ocasiões que participou. Não cumpriu o papel principal: de ser melhor que o Peugeot 905. Mas foi o projeto ressaído da Toyota para o novo regulamento apresentado no fim da vida daquela categoria. Ele foi sucedido pelo já citado e famoso Toyota TS020, o GT-One, que quase venceu Le Mans em 1999. Depois, vocês sabem, a Toyota arriscou na F1, e de lá não saiu até 2009 pra, depois de algum tempo, repensar em entrar no endurance mundial no fim de 2011.

Esse é o projeto "Toyota Sport – The First"... É o insano Toyota TS010, pai do GT-One TS020, avô do TS030 e (bisavô?) do campeão do Mundial de 2014, o TS040.
TS010, TS030 e GT-One TS020 side by side
Aprecie alguns vídeos dele rodando por aí, em testes de desenvolvimento, nos recentes festivais do Japão ou desfilando no lendário Goodwood Festival of Speed não faz muito tempo.

 
Esse aqui são das duas corridas que ele participou no Japão. Vale a pena conferir o raro registro: 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O último Nissan de Le Mans

No momento em que escrevo esta linha, o hype dentro do automobilismo mundial e dentre os fãs da velocidade, desde o fim de maio e início deste mês, são pelas 24 Horas de Le Mans, que acontece daqui a uma semana e meia, no dia 13 de junho e se estendendo até o dia 14. Outro ponto interessante que vem chamando a atenção da edição 2015 da endurance mais importante do mundo é, sem dúvida, a adição da Nissan à classe LMP1, depois de um hiato de mais de 15 anos na principal classe de protótipos.

Não gosto de ressaltar isso, mas 70 ou 80 por cento de todos esses fãs da atualidade conheceram as 24 Horas de Le Mans – e os protótipos dela – no semi-simulador de corridas Gran Turismo. Não que seja algo ruim, mas essas pessoas acabam extraindo algumas informações erradas e postam por aí como se fossem certas. Foi por lá, por exemplo, que eles conheceram o tal do R390 GT1, que muitos pensam que este foi o último protótipo da Nissan Motorsport nas lendárias 24 horas até o GT-R LMP1 ser divulgado. Se não foi lá no Gran Turismo, foi em um blog – que não vou mencionar qual, mas que não perdoo pela picotada não foi o Flatout, sério, foi o Flav... parei – cujo citou erroneamente que o R390 GT1 foi o último protótipo da Nissan pra Le Mans.

A SGTBR está aqui pra desmentir isso.

Esqueça por um momento o lendário R390 GT1, pois ele na verdade é o antecessor do antecessor do atual carro da NISMO. Este post dedica-se a contar a história de um protótipo que é pouquíssimo lembrado na mídia e foi bem pior que o antecessor, mas que foi feito de uma base interessante: o nome do carro é Nissan R391
"Como assim R391? Ele existiu mesmo?"

Exato. Na verdade, se não fosse por uma alteração no regulamento, a Nissan iria continuar com o R390 GT1. No entanto, a FIA, juntamente da ACO (este último, organizador das 24 Horas de Le Mans), acabou modificando o regulamento das 24 Horas de Le Mans, a única coisa que interessava algumas marcas nos anos 90... Na verdade, o impacto foi no FIA GT, o campeonato elaborado pela FIA em cima do extinto BPR, que priorizava a classe GT1. Em 1999, acabaram com os GT1, que estavam sendo compostos por protótipos disfarçados de grand tourer, e subiram os GT2 como carros da nova principal classe: a GT. Nas 24LM, no lugar da já extinta GT1, foi posta a LMGTP, destinada aos protótipos fechados. E pra ser sincero, esta mudança não afetou em absolutamente nada na corrida, só afugentou a Porsche e a McLaren por motivos secundários. O restante continuou na batalha mítica do circuito francês.
Um dos chassis do R391, cru, em Paul Ricard
A Nissan optou por continuar na missão de tentar vencer Le Mans. Aproveitando a modificação regulamentar da FIA/ACO, decidiram abandonar o R390 GT1 e subiram (como uma escadinha) para a classe de protótipos abertos na época, que era a LMP. No embalo de conseguir apoio de um construtor para seu novo protótipo, uma vez que a TWR, que estava aliada ao projeto anterior, se desmembrou da equipe, a NISMO escalou o pessoal da G-Force Technologies, construtor britânico que tinha passagens pela Indycar e tinha dedo de ninguém menos que Chip Ganassi para ajudar no desenvolvimento do carro. O projetista do Nissan R391 foi Nigel Stroud – que, a titulo de curiosidade, construiu também protótipos famosos como o Mazda 787B, vencedor de Le Mans em 1991, e que teve alguns projetos envolvidos na Formula 1. Para chefiar a equipe, foi contratado um tal de Glenn Elgood. Portanto, a Nissan naquela ocasião foi uma equipe completamente nova em relação ao projeto antecessor, que tinha dedo do britânico Tom Walkinshaw, que no momento estava alfinetando a Arrows na F1.

Os primeiros traços do carro surgiram em 1998. Ao mesmo tempo em que a Nissan aliava-se à G-Force Technologies, entrava em cena também a Courage Competition, da França – e que tinha experiência com protótipos especialmente pra Le Mans. O acordo foi tão forte quanto o da G-Force. No caso, a Nissan forneceria o motor do R390 GT1 para um dos Courage C52 selecionados para competir em Le Mans. Em favor da troca, a Courage cedeu um C52 pra NISMO em funções experimentais para o R391, que era um projeto totalmente novo. Curiosamente, este C52 cedido à NISMO acabou sendo integrado a um dos carros da equipe nas 24 Horas de Le Mans de 1999, junto aos dois novos R391. A Courage, junto à Nissan, sairiam no lucro.

Como se não bastasse o chassi ser novo, o motor também era. Ainda era um V8, mas diferentemente do que equipava o R390 (o V8 VRH35L, que tinha raízes dos insanos Grupo C), a aspiração era totalmente natural e a cilindrada foi aumentada pra 5.0 litros (4,997cc). Nos testes em Paul Ricard, acabou indo melhor que o cobiçado motor turbo do GT1, superando as expectativas da equipe pra, enfim, vencer as 24 Horas de Le Mans.

Os carros estavam prontos.
A caminho de Le Mans, no journée test (ou, no mais simples, test day), os dois R391 ocuparam posições discretas – um 10th e 13th lugares. O chassi Courage que estava alinhado pela NISMO acabou em 23th (trocadalho do carilho com o nome Nissan, né? Você provavelmente não entendeu...). Os R391 ficaram em torno de cinco segundos mais lento que o carro mais rápido daquela ocasião – o todo poderoso Toyota TS020, o GT-One, que fez 3'31.857 – e o Courage tomou vareio de dez segundos, que são bem melhores que os 20 segundos do Nissan GT-R LM NISMO atualmente.

Não eram resultados expressivos e muito menos competitivos, pois estavam atrás não só da Toyota, mas da AMG (Mercedes-Benz), BMW, Audi e Panoz. Mas, mesmo assim, a equipe tinha expectativas de vencer os demais na corrida. No qualifying oficial, um desastre: Eric Van der Poele, piloto da tripulação do R391 #23, mandou o carro pro espaço na primeira sessão de testes e, além de quebrá-lo, se quebrou, com uma vértebra deslocada e impossibilitado de participar da corrida. O R391 não foi recuperado. A Nissan tinha até então um único R391 pra corrida, além do Courage C52 que estava integrado ao time. Era tudo ou nada.

O Nissan R391 #22, o único que sobrava, foi classificado em 12th, com o tempo de 3'36.043 obtido pelo alemão Michael Krumm, no Q2. Dentre as equipes oficiais, a pior. Toyota, Panoz, BMW, AMG, todas essas tinham carros à frente do melhor da NISMO, mas vamos lembrar que uma corrida de 24 horas não é uma corrida de Formula 1.
Totalmente ofuscada, a Nissan chegou a figurar na quarta posição geral. Mas as batalhas sempre eram protagonizadas ou pelos Toyota, ou pelos AMG – os mais rápidos da corrida. Quando o Mercedes CLR foi forçadamente retirado de cena, por causa da decolagem que ele levou antes da entrada da curva Indianapolis, a BMW começou a assombrar o pessoal da Toyota, além da Audi, que vinha discretamente com seus novos R8C e R8R e, em demasiada ocasião, a Panoz, que também vinha forte, de alguma forma.

Seria interessante falar da corrida inteira, mas vou parar por aqui, porque o Nissan acabou de abandonar. Depois de 110 voltas completadas, um problema elétrico no motor impediu que o NISMO continuasse a sua empreitada de pelo menos terminar a corrida. Foi um total desastre, pois a Nissan perdeu completamente todos os seus carros. Ao menos o Courage C52 conseguiu terminar a corrida em oitavo, mas foi drasticamente um resultado pra esquecer. Ali mesmo, chegava também o fim da parceria entre a Nissan e a Courage.
A corrida promocional da JAF e ACO, 1999 Le Mans Fuji 1000km
Felizmente, essa não seria sua última corrida. O R391 ainda tinha um lugar para correr: no "1999 Le Mans Fuji 1000km", promovido pela JAF e também diretamente pelo ACO para premiar uma equipe japonesa que vencesse a competição com um convite direto pras 24 Horas de Le Mans do milênio. O mais interessante é que essa corrida, por ter envolvimento da JAF na gestão, teve convite envidado pras equipes que corriam no JGTC, ou seja, pra classe GT500 e GT300. Como a corrida não fez parte do calendário do campeonato, o grid não foi recheado, e contou com apenas 23 inscritos – somente cinco ou seis deles eram protótipos de Le Mans (se considerar a McLaren F1 GTR longtail como um) e ambos disputavam uma vaga direta para as 24 Horas de Le Mans.

Após 228 voltas completadas, quem viu a quadriculada desta corrida foi o... Nissan R391! O carro venceu o GT-One com uma volta de vantagem e seis voltas em cima da BMW V12 LMR da japonesa Team Goh, que terminou em terceiro. Pode-se dizer que, o carro pilotado por Érik Comas, Satoshi Motoyama e Masasmi Kageyama, teve um resultado digno de chamar de seu: venceu uma corrida em cima de um semi-vencedor das 24 Horas de Le Mans. A vaga para a edição de 2000 estava até então garantida.
Até agora não foi mencionado, mas a Nissan, em 1999, não ia bem das pernas, estava atolada de dividas e de dificuldades financeiras. Para parte de sua reestruturação, resultou uma parceria com a Renault e, mais tarde, na entrada de Carlos Ghosn como CEO da marca. Isso foi crucial para o envolvimento da marca no automobilismo, e a equipe decidiu fechar o programa desportivo de protótipos de Le Mans "pra sempre". A nível global, eles chegaram a fornecer motores pra uma equipe de LMP1 em 2005, mas rapidamente desapareceram novamente. Já reestruturada, a Nissan começou a reaparecer depois do lançamento de seu esportivo top-de-linha, o GT-R, que em 2007 veio com a geração R35, que rapidamente ganhou uma versão GT1 pro campeonato da FIA GT1. Em 2011, a Nissan finalmente voltou aos protótipos, mas por enquanto como fornecedora de motores dos LMP2 e com força do programa GT Academy, ironicamente do semi-simulador do qual extraímos bastante informação errada, o Gran Turismo. Finalmente, em 2015, eles voltaram a classe principal, hoje LMP1, e prometem andar no páreo entre as poderosas Audi, Porsche e Toyota, coisa que eu, mesmo sendo fã da marca, duvido muito.

De uma coisa eu sei com certeza (vocês também, imagino), que o R391 realmente é mais bonito que o ousado GT-R LM NISMO, não?

Apreciem o resto das fotos. Uma pena ter quebrado em Le Mans, mas bom por ter vencido uma corrida, ao menos.
E sim, frequentemente ele está no NISMO FESTIVAL, maior evento presencial de carros de corrida da Nissan. De clássicos do Grand Prix japonês até os atuais da SUPER GT.

E se você ficou curioso por essa corrida que aconteceu em Fuji, neste vídeo abaixo tem um trechinho. Aproveite!

quinta-feira, 26 de março de 2015

Kamui Kobayashi é o novo piloto de testes da Toyota Racing no WEC

Kamui nas 6 Horas de Fuji de 2013, como piloto da AF Corse
Kamui Kobayashi foi escalado como o novo piloto de testes – e consequentemente reserva – da Toyota Racing, que anda com o programa LMP1 no Mundial de Endurance (WEC).

Koba, que é mundialmente conhecido por sua passagem na Fórmula 1, irá substituir o lugar deixado por Mike Conway – sendo que este agora é piloto oficial da equipe, devido a saída de Nicolas Lapierre na metade do campeonato. Ele vinha testando o carro recentemente ao lado dos pilotos Mathias Beche e Jean-Eric Vernge no Aragon.

Caso Kobayashi seja escalado para uma das etapas do WEC como reserva, será seu retorno ao Mundial desde a sua participação com a AF Corse, na classe GTE-Pro, em 2013.

"Eu sei que boa parte dos membros do meu tempo de Toyota na Fórmula 1 estão nessa, então é como se fosse voltar pra casa. Andei testando o TS040 e eu estou impressionado. A tecnologia híbrida é realmente avançada."

Ainda continua. "É um ano muito importante para a Toyota, e estou muito ansioso para construir uma ótima relação de trabalho com todo mundo e ajudar no melhor que for possível para desenvolver o carro."

Por via, Kamui irá participar do Journeé Test das 24 Horas de Le Mans. Esse ano, além do novo cumprimento de piloto de testes da Toyota, ele vai ser full season no Japão pela Super Formula, pilotando pro Team LeMans.

Instantâneo do site Sportscar365.

sábado, 31 de janeiro de 2015

SARD de volta às 24 Horas de Le Mans em parceria com a Morand Racing

Lembram do boato de que a SARD voltaria em breve pra Le Mans? Pois é. O desejo da equipe acaba de se concretizar a pouco, mas por enquanto, na classe LMP2.

Para participar do WEC e das 24 Horas de Le Mans, revogando da chance de participar da LMP1, a Sigma Advanced Race Development resolveu se juntar à Morand Racing, equipe vinda do European Le Mans Series (ELMS) e participante das 24 Horas de Le Mans do ano passado, cujo faz estreia no Mundial de Endurance. A parceria caiu como uma luva e os dois Morgan LMP2, além de toda a estrutura e decoração pronta da equipe, já tem alguns pilotos confirmados: Chirstian Klien e Koki Saga vão pilotar o carro #39 e Oliver Webb vai pilotar o #43 ao lado de Pierre Regues, faltando apenas dois pilotos em cada carro. Um deles será conhecido no reality show "Race To 24", que vai decorar também a pintura dos Morgan-SARD.

Vale lembrar que a SARD tem uma longa e estreita relação com a Toyota, mas que não vai interferir no projeto, já que além do chassi não ser rebatizado, o motor da equipe vai ser um Judd V8. 

A SARD, que hoje se encontra na SUPER GT desde que o campeonato chamava-se JGTC, tem bastante experiência em Le Mans e no endurance em geral. No passado, a equipe foi uma das principais clientes da Toyota e chegou a conquistar um pódio histórico em 1994, com o Toyota 94C-V. Para 1995 e sucessivamente 1996, o time japonês deu início a dois projetos muito interessantes: o Supra LM e o SARD MC8-R, baseado no Toyota MR2, mas ambos sem sucesso na clássica. A volta da SARD quebra um hiato de quase 20 anos da prova francesa.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O maravilhoso mundo da internet...

Não é a toa, depois do lançamento-surpresa da Ford no Salão de Detroit, o flagra jalopniquenho do novo Nissan feito para o Mundial de Endurance e as 24 Horas de Le Mans é o auto-assunto mais badalado do momento. Acerca da proposta da montadora japonesa - que confirma por completo que o projeto terá motor dianteiro - opiniões são divergidas. E dado o flagra do Jalopnik, que é impossível não negar que seja fake, não deixa duvidas de que o carro terá a cabine toda recurada para trás em favor do acomodo do motor.

Fato, poucas pessoas esperavam que o carro tivesse motor dianteiro, uma vez que ele é destinado a uma classe tomada por protótipos com motores central-traseiro, mas isso não é nenhuma novidade na LMP1. A Panoz já fez algo similar no passado não muito distante (conhecido como início dos anos 2000) e o carro já papou vitórias de um certo Audi R8...

Voltando ao protótipo da NISMO: antes deste flagra, a galera do Jalopnik tirou outras fotos do carro sendo testado no COTA, mas em uma qualidade no qual sentimos que estamos em 1990 e uma leve impressão de que o GT-R LM NISMO (como vai ser chamado) estava com uma pintura totalmente vermelha. Eles sabiam que haviam bisbilhoteiros?

Bem... Se a Nissan está querendo testar o carro longe dos holofotes, está fazendo isso muito bem, tornando-o irreconhecível. São dias de shakedown e estou curioso para ver este "Batmóvel" em ação logo logo, contra os já veteranos Audi R18, o recém campeão Toyota TS040 e o novo aspirante da maior vencedora de corridas de endurance no planeta: o Porsche 919 Hybrid. É bem provável que o conjunto híbrido do carro (provavelmente herdado do ZEOD RC) produza em torno de 2000cv! Um absurdo até nos dias de hoje. É... o futuro já começou, coleguinhas!

Enquanto isso, divirtam-se com a galeria que tá rodando na internet, entre sketch e as fotos "oficiais" dele:
Jalopnik
Jalopnik
Jalopnik
Jalopnik
Jalopnik
Oriol Folch Garcia
Autor desconhecido
David Land
Daniel Hounsell
Daniel Hounsell
Daniel Hounsell
Jalopnik
Créditos na foto
Consequentemente, um pouco antes desses últimos sketch, entrei na brincadeira, mas o chute foi bem longe. Vale o registro de três desenhos meus feitos em sequência...
Esse acabei fazendo assim que a Nissan anunciou que voltaria a Le Mans. Apesar da enorme frente, jamais imaginava que o carro teria motor dianteiro. Ignorem a largura da visão lateral de trás, infelizmente ficou muito largo.
Esse foi mais aperfeiçoado... tá, as caixas de roda ficaram desproporcionais, mas fiz meio na "pressa". Com esse pensei no regulamento atual da LMP1, que por consequência, acabou lembrado até alguns concorrentes, como o Peugeot 908 ou o Rebellion R-One...
Já esse desenhei numa entediante aula do colégio, e conseguiu ser o mais bonitinho dos meus sketch. Eu não quis largar mão da bundinha do R. Ela continuou ali, com uma certa semelhança do Nissan GT-R da GT500... se não igual.

Dois dos meus colegas também arriscaram na brincadeira, mas também "bolaram" fora:
O Rafael Pereira mostrou um desenho simples, que certamente era muito esperado pelos fãs do R35, o modelo mais recente da linhagem do GT-R. Mas ainda não perco as esperanças do farol vir mais ou menos assim.
Já Victor Santos foi um pouquinho mais discreto. O dele não lembrou tanto o GT-R, mas lembrou um certo Mooncraft Shiden, um dos carros mais interessantes que passaram pela GT300, e que vai ter post em breve no blog.

Por hoje é só, leitores. 

Na espera do Super Bowl...

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A carreira de Tom Kristensen no Japão

Quando se fala neste nome, de cara lembramos do recorde de vitórias nas 24 Horas de Le Mans. De cara lembramos da Audi, equipe que ele defendeu por uma década inteira. E de cara lembramos que o dinamarquês não precisou da Fórmula 1 para ser considerado uma lenda do automobilismo mundial. Tom Kristensen é talvez a maior referência do endurance no mundo. Se não for a maior, está nas primeiras posições de qualquer lugar que seja mencionado.

Hoje (19), Tom anunciou o adeus definitivo das pistas. O dinamarquês preferiu encerrar a carreira após a construção de um currículo no automobilismo que inclui não só os nove títulos nas 24 Horas de Le Mans, como também as seis vitórias gerais nas 12 Horas de Sebring, o título no Mundial de Endurance (WEC) ano passado, um título no BTCC, em 2000, e uma série de vitórias noutros campeonatos.

O que muita gente não deve saber da carreira de Kristensen é que o dinamarquês também se aventurou no Japão, o melhor lugar para oportunidades, incluindo uma carreira no automobilismo.

Na busca de sucesso na carreira, Tom abandonou a Europa para tentar alguma coisa no Japão. Ele vinha participando da F3 alemã e acabará conquistando o título de 1991 antes de partir para terras nipônicas. Seu destino inicial solidou-se nos monopostos da mesma categoria, mas logo ele acabou sendo convidado para participar do JTC, que na época, esbaldava-se dos Skyline GT-R R32 tipo Grupo A. Kristensen entrou na equipe Object T e disputou a temporada de 1992 do campeonato sendo rival de lendas como Naoki Hattori, Masahiko Kageyama, Keiichi Tsuchiya, Kunimitsu Takahashi, Kazuyoshi Hoshino, Masahiro Hasemi, entre outros nipônicos.
O #22 AXIA SKYLINE de Kristensen, em 1992
A temporada em si, foi muito boa para Kristensen. Em parceria com Kazuo Shimizu, seu AXIA SKYLINE acabou faturando segundo lugar nas duas primeiras corridas daquela temporada, um quarto lugar em Sugo, a vitória em Suzuka, dois quintos lugares restantes junto de um terceiro lugar na final em Fuji. Como naquela época o campeonato também contava participação por quilometragem, o resultado final deu a Kristensen o terceiro lugar no prestigiado campeonato de turismo japonês, que no ano seguinte se despedia dos regulamentos impostos do Grupo A da FIA, por conta do monopólio que o R32 causou desde que foi imposto no desporto mundial.

Kristensen permaneceu na Object T em 1993. Desta vez, a equipe mudou o patrocinador principal do carro para a petroleira BP, que trouxe ao carro uma combinação de cor invejável que acabou tirando os olhos de muita gente. Tenho certeza que havia algum brasileiro na torcida que, durante as corridas, gritou: "Olha, o R32 canário!". O que ele provavelmente não sabia é que a lenda chamada Kristensen o pilotava. Nesta temporada, na divisão 3 (Kristensen pilotava na divisão 1), o campeonato contou também com a presença de Mika Salo, finlandês, a bordo de um Toyota AE101, num projeto similar a de Kristensen na tentativa de montar uma carreira no Japão.

Kristensen novamente mostrou que pode ser tão bom quanto os donos da casa. Terceiro lugar na primeira etapa, segundo na segunda, mais dois terceiros lugares no meio da temporada e a vitória na final. Não terminou no top 3, mas o piloto conseguiu um honroso sexto lugar. O único "gringo" entre os 10 primeiros colocados da temporada na despedida do Grupo A pelo turismo.
Corona EXiV de Kristensen, em 1994
Nesse meio termo, Tom Kristensen foi campeão da F3 japonesa. A escola de todo garoto que quer alguma coisa no Japão. Ele acabou correndo também pela F3000 (que pouco depois viria se chamar Formula Nippon), por suporte da NAVI CONNECTION RACING, a partir de 1994. Por sua vez, Tom fez uma temporada meia boca da F3000 em '94, bem diferente do que vinha fazendo no campeonato de turismo, terminando com o melhor resultado em quarto lugar e resultado final em nono. Uma temporada bem melhor pela CERUMO em '95 lhe rendeu o terceiro lugar no ranking, com 29 pontos no total.

Tom Kristensen no Japão e sua cabeleira
que mais faz lembrar um integrante do
Backstreet Boys do que um piloto de
corridas
Também em 1994 e 1995, Kristensen ainda participou do JTC (agora, chamado de JTCC), num formato completamente diferente do que vimos em 1992 e 1993, agora com os carros da classe Supertouring, denominada a classe padrão de turismo nos anos 90 e duas corridas por etapa. O dinamarquês foi posto na CERUMO para 1994 e trouxe para a equipe toyotista, a bordo do Corona EXiV #39, um total de cinco vitórias! Mesmo com o recorde de vitórias na temporada, o piloto perdeu o campeonato para Masanori Sekiya, que foi campeão por 2 pontos de diferença.

Ele terminou a temporada de 1995 em quinto. Uma temporada ruim se comparado ao do ano anterior. Neste ele acabou sendo até desclassificado da race #2 na sexta etapa em Okayama. Depois dessa, ele preferiu se aventurar pelo novíssimo campeonato de gran turismo: o JGTC, a mescla do JTC com o JPSC de protótipos. Com seu bom vinculo com a Toyota, ele participou de uma etapa em 1995 e foi posto a tempo inteiro em 1996 para guiar um Toyota Supra, da GT500, mas não fez uma temporada boa e terminou em 12º no ranking. Em 1997, ele guiou em apenas duas etapas, mas não fez nada que chamasse a atenção, a excesso do quarto lugar em Mine.

Depois de toda essa aventura pelo Japão, o piloto foi chamado pra algumas equipes lá fora, incluindo a bem sucedida Joest, que estava com programa de participação nas 24 Horas de Le Mans de 1997. O resultado, vocês já sabem muito bem.

Apesar de conquistar apenas o título da F3 no Japão, Kristensen é um nome muito bem lembrado por lá, tem uma concentração considerável de fãs no país e certamente é um dos estrangeiros que mais fizeram sucesso nas categorias de base, além do carisma deixado pelo piloto, quer seja no Japão ou em qualquer parte do mundo. O fato é que Tom Kristensen fará falta nas pistas a partir de 2015... Quem sabe ele mude de ideia e acabe correndo por diversão apenas, como Emerson Fittipaldi fará em Interlagos esse ano, pelas 6 Horas de São Paulo, do WEC, evento que ele mesmo gerencia.

A despedida de Tom Kristensen das pistas está marcada exatamente nas 6 Horas de São Paulo, em Interlagos. Aos leitores que pretendem ir prestigiar o evento de perto, espero que aproveitem esta oportunidade maravilhosa de ver a última corrida de Kristensen. E que consigam uma conversa e um autografo da lenda. Obrigado ao Kristensen por ter feito o show no automobilismo! Que ele faça bonito na despedida, mesmo que não vença.